galera costuma achar que nãaaao, mas eu nasci com um pé no mato e outro na praia. papai era dono de um empório (assim como vovô havia sido) e quando eu ia pra lá costumava brincar no galpão em montanhas de milho. na nossa não-casa da praia tinha uma pitangueira, que disputava com as pedras cheias de águas-vivas minha atenção. nossa casa na cidade tinha uma amoreira no quintal, meu lugar favorito de brincar, e na casa de vovó (em frente ao empório), tinha, there we go: um coqueiro, duas mangueiras, uma ameixeira, uma amoreira, uma jaboticabeira (que ela mesma plantou, puta véinha guerrêra), um pé de romã, um de café, um de araçá, um de uvaia, duas variedades de acerola (que eu ajudei a plantar), e o meu preferido, um garbosíssimo pé de limão galego. não que fosse meu favorito naquela época, mas oggi tem valor inestimável, tanto na lembrança quanto nos limõezinhos. ele foi cortado há bastante tempo - sob protestos - , junto ao coqueiro e a um dos pés de manga, quando mudamos o galinheiro de lugar e meu tio CIMENTOU PARTE DO QUINTAL CARALHO. fiquei uns dias sem falar com ele.
o corte da árvore mandou a lembrança do limão pro meu subconsciente, e acho válido citar as mudanças de mercado que "substituíram completamente" o limão galego pelo tahiti. o tahiti é maior e menos suculento, mas não possui sementes, como o galego, o siciliano ou o bravo (também chamado de rosa ou cravo), o que o levou ao TOP LIMÃO BRASIL. pra minha língua, o tahiti também é bem mais suave, e azedo não é o sabor favorito do brasileiro. eu compreendo a mudança, a caipirinha de galego - que antes era exigida pelos caipireiros - tá longe de ser minha bebida favorita.
só que eu dificilmente misturo limão e açúcar.
aí um belo dia eu acordei, disse "vou pra flórida" e fui (não exatamente assim, mas serve pra ilustrar). eu tenho a impressão de que a flórida é conhecida como the sunshine state porque a califórnia já era the orange state. a cada esquina eu encontrava um pé de um cítrico diferente, e numa das esquinas de davie boulevard, enquanto trabalhava pra um italiano num dia quentíssimo de abril, eu e minha mãe encontramos o limão galego. não deu outra, olhamos pro chão e pegamos todos os que estavam caídos. renato, o italiano, observou nossa felicidade coletora e disse que a gente podia pegar QUANTO A GENTE QUISESSE, porque ele nem ficava naquela casa mesmo. disse também pra gente voltar e saquear quando desse na telha. e enquanto eu estive por lá, cozinhei com limão galego.
n00bice observar que existem trolhocentas variedades de limão, mas não vem a ser n00bice avisar os desavisados que lemon em inglês é (mostly) o limão siciliano (o da foto lá de cima), e lime é o galego. a torta de limão americana se chama key lime pie justamente porque o galeguinho deles é 'meio nativo' da flórida (manja key west etc?). o tahiti deles, pelo que me lembro, também é lemon, mas é amargo (sim, azedo E amargo, como uma terça de 40° no rio e você trabalhando de ressaca). aliás, lembro merda nenhuma, só lembro que nunca mais comprei tahiti depois que descobri que era amargo. voltando ao galego: é adocicado, e tem o sabor preciosista de limão colhido de árvore sadia, sem AGROTÓCHICO ou ANTIPESTICIDA. vos apresento agora:
pensei em dizer "ideal pra torta de limão, carne de porco, badejo etc" mas esse limão é mais ideal PRA VIDA mesmo. triste é que é foda de encontrar. vocês podem argumentar que eu não frequentava os lugares certos, mas nunca achei pra vender no rio. e não sei se deu pra notar, mas eu tenho um sour teeth por limões, compro sempre que vou ao mercado, em casa tem limão e ainda assim eu compro; aliás, na minha casa tem mais de um pé de limão rosa. maníaca & neurótica.
eis pois que eu estava passando por americana, fazendo compras pra cozinhar tacos pra um batalhão, quando me deparei com uma banca de limões galegos. nesse dia eu me excedi um pouco e levei a banca inteira, uns 7 quilos de limão pra casa. é, é, os que tavam feios também. depois disso achei uma vez em barão geraldo (me excedi novamente e comprei a banca de novo) e NUNCA MAIS. até que eu tive a brilhante idéia de passar no mercadão essa semana e comprar três quilos. um já foi, mas continuo sendo a alegre possuidora de dois quilos de limão maduro. nesse momento meus stalkers pensam "ótimo, sua chata, agora é só comprar uma corda de navio e fazer um ben-wa de 12 metros", mas como eu nunca ouço os pensamentos dos stalkers, pensei numa tática mais beligerante, como congelar e ter limão pro resto da vida.
ontem de noite enfiei um limão no congelador, e oggi de manhã joguei o bicho dentro de um copo de água. ele ainda estava verde. às duas da tarde fui dar um confere e já estava amarelado, quando cortei não tinha sumo, só gomos, e parecia estar soltando óleo. também tinha começado a não cheirar delírio, estava com cheiro de limão velho. agora recorri ao livro "congelados: técnicas e receitas na cozinha" (leatrice postarek e lilia do canto e mello, editora francisco alves), datado de 1986, quando mamãe comprou um freezer (bem me lembro do DIA, e eu tinha 4 anos). a página 26 diz, sobre cítricos:
"envolva em papel filme e coloque em pedaços em saco plástico próprio para congelamento. coloque em uma caixa rígida polvilhada com açúcar ou em calda fina(...) descongelamento na embalagem, em temperatura ambiente (...) duração de 12 meses".
vou agora pro jogo com um limão, amanhã faço o update.
UPDATE
eu disse amanhã?
admito que eu não fui honesta e ensaquei o limão com um plástico qualquer, já que não tinha sacola própria nem na minha casa nem no mercado. de qualquer forma ficou melhor que apenas jogado no congelador, ficou QUASE direito. e agora não importa mais porque o fim de semana reduziu os limões a um quarto etc. quando achar os saquinhos próprios vou tentar de novo.
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